O Boticário

01 agosto

O Boticário


Em uma cidade pequena, com pais de origem humilde, nasceu Carmem. Embora durante a infância, ela sempre tenha demonstrado ser uma criança alegre e bem educada, Carmen sofria de um problema sério, seu rosto era deformado por uma máscara natural, ela tinha uma cicatriz em diagonal, que ia da raiz dos cabelos na têmpora esquerda até abaixo do maxilar do lado direito, a pele ao longo da cicatriz tinha uma cor esverdeada, era escamosa como uma cobra e toda a cicatriz era aberta, como um longo corte grotesco e profundo, a sensação que se tinha ao olhar para ela, era que haviam acabado de lhe cortar a carne do rosto com um golpe de espada, mas era apenas uma feia cicatriz, fruto de um parto complicado, em que para que a criança saísse o médico precisou fazer um corte, um procedimento comum em partos, mas infelizmente, o bisturi perfurou a pele da criança em um erro, que rendeu ao médico a perda de sua licença. Embora o médico não entenda, como foi capaz de um erro tão grave, a cicatrização não ocorrera como esperado, Carmem sofria de uma rara condição, que não permitia que sua pele se "colasse" novamente, ela apenas cicatrizava em um tom esverdeado e feio, mas a aparência do corte não poderia ser corrigida.
Foi na adolescência, que o impacto de sua aparência começou a incomodar, as pessoas não queriam fazer amizade com ela, os garotos não se sentiam atraídos por ela e, aos poucos, seu ódio por espelhos se tornou avassalador, não havia maquiagem que pudesse cobrir, nem cremes que pudessem tratar, tudo que tentava, inclusive as intermináveis consultas a cirurgiões plásticos, haviam terminado de lhe roubar as esperanças de ter um rosto bonito.
Apesar do drama com a aparência, ela se esforçou, estudou e se formou em uma boa faculdade de arte, ficava fascinada pelas obras de arte, os quadros, as peças com pedras preciosas incrustadas e toda a beleza, da qual não poderia dispor, devido o alto valor agregado.
Foi em uma viagem que Carmem conheceu o boticário, seu nome era estranho Locksca Proud, ela não conseguia identificar de onde era, mas era um senhor moreno, parecia um indiano e tinha uma loja de produtos naturais, em uma vila próxima ao Cairo no Egito.
Locksca, era conhecido por se o mais antigo boticário do lugar, haviam inclusive pessoas que diziam que ele nunca envelhecia, o que obviamente não era verdade, pois o homem tinha uma aparência frágil, encurvado e idoso, parecia ter bem mais que 100 anos de idade, na verdade parecia ter mais de mil anos, como uma múmia, mas muito simpático.
Como o homem era famoso por suas receitas, que poderiam curar qualquer coisa, Carmem decidiu visitá-lo e perguntar se havia algo que ele indicava, para tratar seu rosto.

A campainha da porta da loja soou, indicando que um cliente estava entrando, Locksca se aprumou em seu banquinho.
- Boa tarde, em que posso lhe ser útil? - disse, vendo as costas da moça de cabelos negros que entrava.
Ela se virou. Esperou que o homem se assustasse com sua aparência, mas ele nem pareceu notar a cicatriz imensa, que deformava sua face.
- Preciso de algo para cobrir isso. - disse Carmem apontando para o próprio rosto.
- Oh, um caso grave de astaantii - disse ele, como estivesse falando de uma gripe.
- Caso grave de quê? - perguntou ela.
- De astaantii é uma doença de pele, a pele não se fecha direito, formando cicatrizes feias, é uma doença rara, poucos casos conhecidos no mundo, se não me falha a memória, houve um caso na África, há cerca de 2 mil anos atrás, astaantii significa cicatriz em somali, coisa bem rara moça. - disse o homem, com um sorriso astuto como se fosse um velho mago, que sabe mais do mundo do que parece.
- Nunca ouvi falar desse nome, mas pelo que o senhor explicou, se parece com o que os médicos dizem que tenho. - respondeu ela.
- Médicos... Sabem tão pouco, sobre o mundo e todas os males que existem nele... - disse o homem pensativamente.
Ela percebeu, que apesar da aparência frágil, o velho parecia ter uma vivacidade incrível.
- Tem algo que possa me ajudar? - perguntou ela.
- Isso depende, minha jovem, o que está disposta a pagar pela cura? - disse o velho e ela poderia jurar que seus olhos brilharam de forma estranha, naquele breve segundo.
- Não tenho muito, trouxe pouco para a vigem. - disse desanimada.
Locksca tocou seu ombro com a mão enrugada e por um instante, ela pensou que ela iria se partir e ficar presa em sua clavícula.
- Querida, a cura de um mal tem a ver com a cura de um coração, há pessoas que ascendem ao mundo, com uma ferida espiritual e enquanto essa ferida não se fecha, o corpo não se cura. - ele a observou por alguns instantes. - Temo que a sua feria espiritual seja horrível, você tem duas escolhas, abraçar o feio ou permanecer o resto de sua vida, com esta cicatriz.
Ela o olhou boquiaberta, há muito convivia com um segredo, uma coisa íntima, que nunca havia deixado trespassar a superfície, um segredo de quem era e daquilo que sentia, nunca quis deixar emergir, mas ali, naquele lugar velho, poeirento e cheio de caixas de aparência antiga e misteriosa, eis que um velho lhe tocava fundo a alma, como ninguém mais.
- Quero me livrar dessa marca, causa-me problemas que não desejo ter, ela foi um erro médico. - respondeu ela, não reconhecendo o próprio tom de voz.
- Temo ter sua cura, mas uma vez que aceite, saiba que sua vida inteira mudará, posso lhe dar a cura, mas há um preço. - alertou ele.
- Que preço? - perguntou ela.
- Saberá, quando tiver que pagar por ele. - disse ele simplesmente.
Então o velho saiu, a passos vacilantes e foi até os fundos da loja. Ela ouviu alguns barulhos, por uma fresta de cortina, que separava a loja de sua mesa de manipulação, ela viu ele pilando algumas folhas azuladas. Então ele abriu uma gaveta e pegou uma caixa, raspou as ervas que havia espremido dentro da caixa e misturou, então caminhou com a caixa mais para dentro e ela não pôde ver o que ele estava fazendo, mas ouvia o som da colher de pau arranhando um fundo de metal, como se estivesse misturando algo mais, ao conteúdo da caixa.
Após alguns minutos, ele retornou com a caixa nas mãos, dentro havia um pote, parecia de metal escuro e redondo, entalhado com folhas e delicadas flores,  em um tom avermelhado, a princípio pensou ser bronze, mas nunca tinha visto um metal, de cor avermelhada tão forte.
- O que é? - Perguntou Carmem.
- Um creme. Você deve passar em sua cicatriz. - disse ele.
- Um creme? - perguntou incrédula. - Tem alguma ideia de quantos cremes eu já usei?
- Imagino que muitos. - disse ele a olhando como se ela fosse uma criança tola, fazendo perguntas igualmente tolas. - Mas este é especial. - ele fez uma pausa. - Não deveria usá-lo, mas sei que vai, então, cuide bem, não precisará de muito e o preço virá, saberá quando pagar. - ele sorriu e seus olhos se enrugaram ainda mais.
Ela ficou confusa, pegou a carteira para pagar o homem e ele lhe fez sinal para que a guardasse.
- Não quero seu dinheiro. - disse ele 
- Está me dando? - perguntou ela.
- De certa forma sim, mas como lhe disse, pagará o preço se decidir usá-lo. - ele alertou.
Ela apenas agradeceu com um aceno de cabeça e saiu com a caixa de creme, foi para o hotel, a olhou, mas com um pouco de receio do que o homem lhe disse, ela resolveu esperar para usar.

Alguns meses depois um incidente a fez sentir-se péssima, estava em uma galeria de arte observando os quadros e sonhando, com o dia que teria belas obras de arte em sua coleção, quando um casal chamou sua atenção, pedindo se podiam bater uma foto com ela, seu olhar de horror e aversão, fez com que eles se sentissem sem graça e saíram balbuciando pedidos de desculpa. O casal parecia rico, ele usava um terno de grife e ela um vestido, que parecia mais caro que o carro de Carmen. Aquelas pessoas, fizeram ela se sentir horrivelmente feia e, pior ainda, incrivelmente revoltada de por que, pessoas assim mesquinhas tinham tanta riqueza, enquanto ela com gosto apurado para arte, era feia com aquela maldita cicatriz. 
Naquela noite, quando chegou em casa, ela pegou a caixa misteriosa, há muito esquecida, cheirou, tinha cheiro forte de ervas, mas prometia curar a cicatriz, como era mesmo o nome que o velho dera? Ah sim, astaantii. Pegou um pouco, na ponta do indicador direito e passou ao longo da cicatriz, realmente, o produto se espalhava perfeitamente, na embalagem não haviam instruções, mas como o pouco creme que ela pegara cobriu toda a cicatriz, decidiu que não passaria mais, olhou no espelho e não viu nada, provavelmente, porque o uso iria diminuí-la aos poucos, então foi para a cozinha preparar um café.
Porém, ao pegar a xícara de café, foi atingida por uma dor excruciante no rosto, a xícara caiu de suas mãos quando ela as levou ao rosto se curvando de dor, ficou alguns minutos soltando grunhidos entrecortados, até que, pouco a pouco, a dor foi sumindo, resolveu ir até o banheiro, mas ao acender a luz e olhar no espelho, viu uma estranha olhando de volta, não uma completa estranha, o rosto parecia familiar, um misto de características belas e harmoniosas de rostos que a cercavam, os lábios de uma colega de faculdade o nariz delicado de uma bibliotecária, os olhos felinos de uma professora da faculdade, entre outros traços que eram tão sutis, que não se recordava de quem eram, seu rosto não demonstrava nenhuma marca de cicatriz, estava perfeito, lindo, como nenhum rosto no mundo era, estava maravilhosa, linda, estava feliz, então começou a chorar emocionada, mas as lágrimas começaram a lhe causar dor e onde elas passavam, a horrível cicatriz começava a aparecer apagando os traços bonitos, que o creme lhe proporcionara.
Então resolveu ir para a cama, lavou o rosto e a cicatriz podia ser vista novamente, clara e horrenda como sempre fora, ela não podia molhá-la, então para usar seu novo rosto precisaria de algo para protegê-lo, para que nem a cerração noturna pudesse desfazer o efeito do creme, ele rendia, mas ela não possuía muito e não poderia voltar a todo momento no Cairo, para pedir ao velho que lhe desse mais.
No dia seguinte, procurou no guarda roupas e as únicas coisas que encontrou, foram um chapéu vermelho e um sobretudo, também vermelho, com o qual podia levantar a gola como Sherlock Holmes e proteger o rosto, de ser limpo do creme milagroso.
Resolveu ir até a galeria do dia anterior, com a cena desagradável do casal nem conseguira apreciar o restante do passeio, de tão triste que ficara.
Se apaixonou por um quadro, era maravilhoso, de um pintor famoso, com belas linhas e cores harmoniosas, como seu novo rosto.
Qual não foi sua surpresa, ao notar o casal grosseiro se aproximar e falar com o dono da galeria, ele apontou o quadro que Carmem havia gostado e sacou o talão de cheques para preencher, maldito, estava comprando seu objeto de desejo!
Quando ele saiu, um impulso repentino a fez segui-lo, não sabia por que, mas queria aquele quadro mais do que nunca, ela o seguiu até seu apartamento, lá ele retirou o quadro do banco de trás e o levou para cima, ela observou que ele digitara uma senha no alarme, esperou ele subir, provavelmente iria abrir uma janela e ela saberia onde eles moravam, esperou como uma sombra, em um canto escuro e discreto, as pessoas na rua nem a notavam, apesar das roupas vermelhas, ninguém parecia perceber que ela estava ali, como se fosse um fantasma, o que era novidade, já que sua cicatriz chamava muito a atenção.
Viu então a mulher abrir a janela, e percebeu que devia ser o terceiro andar, continuou esperando nas sombras, até anoitecer, então foi ao painel e digitou um código, o que o homem havia digitado, incrivelmente ela acertou o código e a porta foi destrancada, ela subiu até o terceiro andar e calculou onde deveria estar a janela que ela viu pelo lado de fora, forçou a porta, estava trancada, em um impulso completamente alheio, pegou um grampo de cabelo na bolsa e o inseriu no buraco da fechadura, com uma destreza que sequer sabia ter, conseguiu facilmente destrancar a porta.
O apartamento era amplo e muito bem decorado, parecia um sonho, estava envolto na penumbra, e ela podia ouvir, no fim do corredor, o som delicado das respirações de seus donos adormecidos, estranhou a boa audição, agora estava mais que perfeita, aliás, observou ela, TODOS os seus sentido estavam mais aguçados.
O quadro estava em uma parece próxima ao sofá, que devia ser caríssimo, ela tocou o quadro quase em transe, retirou ele da parede, então saiu com ele nas mãos de forma discreta, parou na porta, para retirar o grampo que ficara trancando a lingueta da fechadura, ajustou a porta no lugar e retirou o grampo, a lingueta se soltou e travou novamente a porta, forçou e notou que estava trancada, então saiu pelas escadas com o quadro na mão, colocou ele no carro e foi para casa, ninguém a viu, tinha certeza.
Colocou o quadro na sala de casa e ficou observando ele, sua nova aquisição, incrivelmente, o fato de tê-lo roubado não fazia a menor diferença, como se seu senso moral tivesse se deturpado, não deu importância, roubar era a coisa "feia" que ela sempre escondera e, aparentemente, esse era o preço que ela teria que pagar para se livrar da cicatriz, riu com gosto, não parecia tão ruim.
No dia seguinte, seu roubo intuitivo estava nas manchetes, "Casal tem apartamento roubado enquanto dormiam", ninguém viu nada, não havia sinais de arrombamento e Carmem riu ainda mais, notando que era talentosa para o trabalho. 
Depois daquele roubo sua vida se transformou, da mulher tímida, com uma cicatriz horrenda, ela se tornou uma eximia ladra, mundialmente conhecida, ninguém conseguia pegá-la, apesar de saberem sua identidade, e de lançarem vários anúncios descrevendo-a de diversas formas, jamais conseguiam pegá-la, pois sempre podia mudar seu belo rosto, assumindo novas feições que desejasse, o creme lhe permitia isso. 
Um dia, no entanto, eis que Carmem encontrou o velho, apesar de estar lindíssima sem nenhum vestígio da cicatriz, Locksca a reconheceu.
- Vejo que usou o creme afinal. - disse ele baixinho.
- Sim - ela respondeu.
- Pagou o preço, lhe pareceu caro? - perguntou ele.
- Não, achei um preço justo. - respondeu ela com altivez.
Ele riu, um barulhinho parecido com um chacoalhar de guizo.
- Realmente, sua alma é tão feia quanto a cicatriz que lhe deformava o rosto, enfim o creme lhe virou do avesso. Com tempo Carmem o creme será uma parte sua, nunca mais terá volta, será sempre a moça bonita com a alma de ladra, mas conservará o poder de alterar seus traços. Avalie, se é isso que quer para sua vida, embora eu saiba que há muito já tomou essa decisão. - disse o velho, com seus olhos penetrantes, como se visse a alma das pessoas.
- Sim, já decidi. - respondeu ela.
O velho fez uma reverência de cabeça e saiu, com sua aparência frágil como se fosse se partir. No entanto, ao virar a esquina, já fora de vista, ele se transformou, em um belo homem jovem.
- Entendo você Carmem, também paguei o preço - sussurrou ele como se falasse consigo mesmo - Há muito tempo, eu paguei e em nenhum dia dia de minha imortalidade, me arrependi, espero que também, não se arrependa, quando nos esbarramos daqui um século, quem sabe lá, já tenha percebido o que realmente lhe dei. - sorriu de forma maliciosa, então seguiu seu caminho.



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8 comentários

  1. Esse conto ficou muito, muito bom! :)

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  2. Muito imaginativo!
    Consegue prender a atenção até o final.

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  3. Um conto cativante a parte que mais me tocou "Querida, a cura de um mal tem a ver com a cura de um coração, há pessoas que ascendem ao mundo, com uma ferida espiritual e enquanto essa ferida não se fecha, o corpo não se cura" nos traz uma ótima reflexão, obrigada por compartilhar.

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    1. Fico feliz que tenha gostado e que tenha ficado tocada com a parte que mencionou.

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  4. Oi Lila, esse é o melhor conto seu que já li até hoje, a história conseguiu me prender do início ao fim, a narrativa evoluiu e conseguiu me surpreender em mais de um ponto! Você brilhou demais! Tinha visto sua divulgação do conto e tô há tempos querendo vir aqui ler! Ainda bem que eu vim! ehehe
    xoxo

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    1. Oh meu Deus! Ganhei o dia *-* Obrigada Re!!!!!! Fiquei muito feliz mesmo em saber q curtiu!!!!

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