Por que eu sou Professor

10 agosto

Por que eu sou Professor

Parei em frente a porta, respirei fundo e entrei, vários jovens rostos me olharam curiosos. Era o primeiro dia do semestre, minha chance de cativar as jovens mentes, que estavam ali em minha frente. 
Me apresento a eles, Roberto Gullier, 48 anos, solteiro, sem filhos e professor de escrita criativa por afinidade, eles riem e eu continuo explicando a dinâmica desta primeira aula, cada um deve se apresentar de forma criativa, exemplifico dizendo que podem cantar, fazer teatro, plantar bananeira ou qualquer coisa nada convencional que lhes vier a mente, eles me encaram incrédulos, digo a eles que podem se oferecer, mas que todos deverão se apresentar, caso demorem começarei a chamá-los por ordem aleatória da chamada e eles arregalam os olhos, ainda mais incrédulos, enquanto eu escondo a boca com a mão abafando um sorriso.
O primeiro a se apresentar é um garoto franzino, tem cerca de 1,65 de altura, cabelos castanhos, usa óculos de grau, aparentemente alto, moletom com várias referências de games, jeans surrado e tênis, ele se apresenta como personagem de RPG online  e eu fico contente, porque essa é nova pra mim.
O segundo a se apresentar é outro rapaz, ele escreve no quadro imitando um professor severo e eu dou risada, é um daqueles rapazes populares e divertidos, que fazem sucesso por sua espirituosidade. 
A terceira a se apresentar é uma garota, ela usa charadas de referência e faz com que os demais interajam, respondendo as perguntas e descobrindo seu nome e demais informações por enigma. 
E assim, um a um vai se apresentando. Quando o último se apresenta, eu me levanto e bato palmas, agradeço a colaboração de todos e digo que fiquei impressionado com a criatividade deles.
Começo então a mencionar a forma como vamos trabalhar, minha disciplina envolve criatividade, sendo assim a maioria das atividades será de improvisação, darei temas e eles terão de desenvolver textos com estes temas, confesso que tenho ideias loucas para os temas, que eles devem vir as aulas de mente aberta e desprovidos de padrões, porque não vou facilitar para ninguém. 
Eles ficam com aquelas expressões penalizadas, entre o medo do que virá e excitação de poder criar sem limites.
A aula finalmente termina e os alunos se vão, arrumo minhas coisas e vou para casa, pensar nas propostas da próxima aula.
Uma breve introdução, sobre quem sou e o que faço, acho que ficou bastante claro na verdade, mas quero aqui explicar alguns dos meus motivos, para ser quem sou.
Meu nome, como disse, é Roberto, tenho 48 anos, sou formado em jornalismo e letras, tenho várias especializações e um mestrado em literatura. Comecei a me interessar por escrita criativa quando era universitário de jornalismo, a matéria surgiu e eu fiquei fascinado em trabalhar com improvisação, desde então comecei a me especializar e hoje, sou professor bem cotado, com uma bagagem que faz de mim muito qualificado.
Decidi seguir carreira acadêmica, por amar a sala de aula, sou apaixonado pelas jovens mentes prontas a serem moldadas, gosto de estimular eles a pensarem fora da caixa.
Meus exercícios, são os mais loucos e bizarros possíveis, às vezes coloco uma imagem no slide e peço que escrevam qualquer coisa sobre ela, um texto, conto ou poesia. Às vezes, pego um dicionário, passo de carteira em carteira, pedindo que me falem uma letra qualquer, então escolho uma palavra aleatória e peço que escrevam algo sobre ela, muitas vezes eles sequer sabem o significado, então digo apenas "não importa escreva com o significado que quiser, mas não olhe na internet o significado real". Às vezes, levo vários panfletos de lojas e supermercados, então escolho uma oferta e peço que escrevam algo sobre ela.
São tantas as opções de escrita criativa, as possibilidades são infinitas e o melhor, os alunos não costumam entregar coisas muito próximas. 
Dou nota por critérios, ortografia e concordância valem cerca de 20% da nota, controle e desenvolvimento das ideias de forma satisfatória, rendem mais 20% da nota e os demais 60%, são de criatividade e originalidade, costumo deixar claro, que quanto mais genérica a ideia, menor será a nota, por exemplo: Peço um texto sobre uma lata de milho, o mais comum, é falar que ela será usada em um jantar importante e o foco se perde, indo para pessoas, que estão utilizando o objeto de criação (a lata de milho), então essas pessoas levam notas mais baixas, em detrimento daqueles que contam a história do milho ou, até mesmo, da lata.
O mais divertido no meu trabalho, é ler as mentes que me cercam, algumas possuem travas severas e simplesmente, não conseguem produzir coisas muito inovadoras nas primeiras atividades, outras, são extremamente loucas e apresentam níveis de criatividade incríveis, entregando materiais extraordinários, há aqueles que desenvolvem ideias simples de modo organizado e limpo, trazendo textos de muita qualidade, enquanto outros, apresentam ideias muito interessantes, mas que não conseguem desenvolver de forma satisfatória, outros, simplesmente tem ideias inovadoras e as desenvolvem lindamente. 
Porém, o que eu mais amo em lecionar é muito simples, eu chego no primeiro dia de aula e faço minha apresentação especial, faço inúmeras anotações em meu caderno, com os nomes dos alunos e suas capacidades de se expressarem, então eu crio um mapa mental de como desenvolver cada um deles, tento ao longo do semestre usar essas breves anotações, para lapidar os meus alunos, por mais que deseje que meus escritores saiam da minha aula mais criativos, não posso pedir para o garoto dos games, escrever sobre roupas de grife ou algo assim, obviamente, manipularei algumas atividades, em favor das capacidades de cada um. 
Acredito que, não há limitações para nossa capacidade, mas que devemos sempre estimular as afinidades, as pessoas quando escrevem gostam de ter empatia com aquilo que estão desenvolvendo, poucas são as pessoas que, por exemplo, nunca tiveram filhos e poderão criar um relato realmente visceral, sobre esta experiência. É possível, com toda certeza, conheço pessoas que fazem esse tipo de coisa, pessoas que não vivem as coisas que escrevem, mas possuem tamanha criatividade, que podem enganar qualquer leitor, ao ponto de ele se confundir sobre a veracidade de um relato, por exemplo, mas a maioria das pessoas, começa por afinidade e por isso, eu costumo tentar ajudar meus alunos, a desbloquearem suas mentes, a partir de coisas mais simples e ir dificultando aos poucos.
No fim do semestre, nas últimas aulas, eu faço uma brincadeira, entrego uns aos outros seu primeiro e último texto e peço que percebam como os colegas evoluíram em sua escrita, mesmo os mais conservadores, acabam produzindo coisas mais ousadas ao longo das aulas e isso, é o melhor pagamento, e é por isso, que pretendo permanecer até a velhice como professor.

Atenciosamente
Roberto Gullier




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