Som de Violino - Parte 2

09 junho


Som de Violino - Parte 2

Esta é a continuação do conto Som de Violino publicado anteriormente, recomendo a leitura para melhor ambientação.

Eles estavam sentados no sofá da sala, ela não conseguia largar a foto, não conseguia parar de olhar, como era possível?
- Amor, preciso que confie em mim e me permita dizer tudo antes de fazer qualquer pergunta, tudo bem? - disse Charlie e ela concordou com a cabeça. - Esse casal na foto somos nós, quer dizer, sou eu, ela é que não é você. - Ela o olhou espantada, com a interrogação estampada no expressão. - O nome dela era Helena, e a menininha era nossa filha Julie, tinha 5 anos. - ele fez uma pausa.
- Helena... - disse ela, o nome lhe pareceu estranho, como se há muito não ouvisse ele. Fechou os olhos e uma cena inteira se formou, como um trecho de um filme antigo. 
Ela estava de pé na porta de casa, Julie estava sentada no gramado embaixo de um salgueiro, ela tinha uma boneca de pano loira e sorridente, a criança olhou para a mãe, acenou e sorriu. Ela era linda com os cabelos ondulados de um castanho claro brilhante, olhos castanhos como os do pai, doce e educada, uma criança maravilhosa, a mãe acenou em resposta e, por alguns segundos, sentiu um aperto no peito, como se algo de muito ruim estivesse vagando no ar.
A cena durou poucos segundos, mas foi o suficiente para fazer seus olhos se encherem de lágrimas.
- O que está acontecendo comigo? - disse enquanto as lágrimas desciam quentes pelo rosto.
- Você está se lembrando. - respondeu ele.
- De quê? - ela parecia irritada e confusa.
- De sua vida. - ele a olhou de forma grave. - Deixe-me contar a história. - ela concordou.
- Eu nasci no século XVIII meu nome é Charlie Grogan. Quando eu tinha 25 anos eu conheci uma moça, ela era a mulher mais linda que eu já vi, seu nome era Helena Folks, ela tinha 21 anos, foi amor a primeira vista. Comecei a cortejá-la no verão, firmamos compromisso, no outono daquele ano eu pedi sua mão e marcamos a data para a primavera. Tudo era perfeito, eramos felizes, tínhamos nossa casa próxima a floresta, da nossa janela conseguíamos ver as montanhas e lá no alto o castelo do duque, um homem estranho e recluso. Após um ano de casados tivemos nossa pequena Julie. Helena era costureira e eu era balconista em um mercado da vila, tudo ia bem, mas quando Julie estava com 5 anos as vendas caíram e fui demitido, uma praga se apossou da cidade, não surgiam mais pedidos e Helena também não tinha mais trabalho, resolvi então subir as montanhas e conversar com o duque. Ele me ofereceu um emprego, mas disse que eu precisaria passar um tempo com ele no castelo. Tive que deixar minhas mulheres sozinhas. Lá aconteceram coisas terríveis, ele me usou para as mais estranhas experiências, usou de métodos obscuros, foram cirurgias e rituais das mais diversas culturas, por fim eu estava morto, mas não estava, uma dia eu fugi, desci as montanhas e bati na porta de minha casa, Helena me atendeu, conversamos muito, ela me fez várias perguntas e eu respondi todas elas, eu parecia bem, mas eu sabia que não estava. Ela me disse que estava grávida, que havia descoberto assim que eu fui embora, isso já tinha 3 meses, ficamos muito felizes, em comemoração toquei violino para ela naquela noite, dormimos abraçados. O som da porta batendo ao vento nos despertou, percebemos que algo estava errado.  Helena verificou o quarto de Julie e ela havia sumido, saímos para a noite a procura dela, o lugar parecia um deserto, as casas estavam vazias, nos separamos para procurar nossa filha, então eu ouvi os gritos de Helena, estava caída no chão curvada sobre o ventre e tinha sangue manchando o vestido. Tudo que ouvi foi o rosnado dele, enquanto ela morria em meus braços, implorei que me ajudasse e ele me disse que não ajudaria um traidor. Quando ela morreu eu gritei e chorei enquanto ele ria compulsivamente, encontrei minha filha naquela noite, degolada e jogada na floresta de forma displicente, naquela noite prometi que o mataria, viajei pelo mundo e estudei para entender o que ele me tinha feito, descobri que ele usava além de ciência e anatomia, artes das trevas para me manter vivo, eu era um tipo grotesco de zumbi, um morto vivo. Nada pode me matar, talvez possa, mas como sou um emaranhado de partes e rituais, não há como saber o que sou. Vaguei por anos, sozinho, até encontrar você... - ele a olhou com ternura. - Você é igual a ela, sempre pensei se não teria alguma ligação e agora sei que você tem o espírito dela, que de alguma forma a minha amada Helena voltou pra mim. - fez uma pausa para verificar a expressão incrédula dela. - Eu te amo Olivia.
Ela o olhava incrédula, era uma história absurda, em pleno século XXI! Ele era um homem normal, perfeito, carinhoso, educado, como poderia ser assim tão velho?
- Amor, por favor, diga alguma coisa. - ele parecia péssimo.
- O que eu poderia dizer? Eu não consigo digerir isso! Que coisa absurda, você é um, seja lá o que for, se é que isso é verdade, se é que não está alucinando e precisa de um psiquiatra. Eu... não sei o que pensar! - Ela estava gritando, viu a expressão de tormento no rosto dele e parou de falar.
As emoções estavam misturadas, era uma história insana, mas ela viu o lugar, sentiu a dor, provavelmente o aborto do bebê que estava esperando, viu a filha e o duque rindo, como um rosnado, como se ele magicamente a houvesse matado, tudo que ele contou, parecia real, mas não podia ser. Ela escondeu o rosto com as mãos e chorou copiosamente, sentiu ele se aproximar e afagar seus cabelos, era isso que amava nele, seu carinho, a maneira de sempre conseguir ampará-la.
Nos braços dele adormeceu. 
Acordou em um lugar estranho, um quarto pequeno, sem janelas, as paredes acolchoadas uma porta grossa, chamou por socorro e um homem a espiou pela grade na pequena janela que havia na porta, não lhe disse nada, apenas saiu, minutos depois voltou com um homem, ele usava jaleco e falava suavemente.
- Venha comigo, por favor. - disse e ela o seguiu confusa.
O corredor por onde passava tinha várias portas e dentro pessoas com comportamentos estranhos. Eles viraram a esquerda no fim do corredor até chegarem a uma porta larga, parecia um consultório e ficou se perguntando se estava em um hospital.
- Sente-se por gentileza. - disse o homem de jaleco e ela obedeceu. - Eu sou o doutor Reed, sabe por que está aqui? - perguntou ele a observando atentamente.
- Não sei nem onde estou... - respondeu confusa.
- Entendo. - disse ele. - Deixe-me contar a você então. - ele se ajeitou na cadeira e entrelaçou os dedos como se fosse rezar, ela reparou nesse gesto, como se fosse muito familiar, mas não conseguia recordar o motivo.
- Olívia, você está aqui porque está tendo um transtorno dissociativo de identidade. - ele fez uma pausa para avaliar a expressão dela. - Lembra-se do que houve? - perguntou.
- Claro que sim, lembro que estava em casa com meu marido, Charlie, ele... ele... estava me contando uma coisa importante. - ela tentava se lembrar dos detalhes, mas eles pareciam estar se apagando rápido como em um sonho.
- Olívia, você veio para cá porque pensa ser outra pessoa, teve um lapso sério e feriu pessoas importantes, por isso veio para cá. - disse o Dr. Reed.
- Feri? Está louco? Eu... Eu estava em casa com meu marido, ele me contou uma história antiga e eu adormeci e acordei aqui! Que lugar é este? - sua voz soava esganiçada pelo desespero.
- Olívia, preste atenção, este lugar é um hospital psiquiátrico, você está aqui há 18 meses, você tem repetidas alucinações, imagina ser a reencarnação de uma mulher chamada Helena, que viveu no século XVIII, que seu marido sofreu modificações e é um ser estranho, que sua filha de 5 anos Julie foi morta por um duque e que teve um aborto espontâneo e morreu, você acredita que seu marido é um homem de mais de três séculos e que ele lhe contou esta história. Você conta essa história repetidas vezes, desde que chegou aqui, em geral vive essas lembranças em sua cabeça, mas nada disso é real, é apenas um transtorno dissociativo de personalidade, você alucina uma história, mas há poucos momentos de lucidez em que se lembra, daqui, de quem é... - ele parou observando o rosto dela, branco como cera, com a boca entreaberta. - tem dias em que se lembra do que fez.
- O que eu fiz? - perguntou num fio de voz, mas não ouviu a resposta.
Ela estava de pé na porta de casa, Julie estava sentada no gramado embaixo de um salgueiro, ela tinha uma boneca de pano loira e sorridente, a criança olhou para a mãe, acenou e sorriu. Ela era linda com os cabelos ondulados de um castanho claro brilhante, olhos castanhos como os do pai, doce e educada, uma criança maravilhosa, a mãe acenou em resposta e, por alguns segundos, sentiu um aperto no peito, como se algo de muito ruim estivesse vagando no ar. 
A cena mudou, chovia e o salgueiro estava com manchas de sangue, a boneca de pano jazia jogada como um trapo, sujo de lama e sangue, o vestido de Olívia estava manchado de sangue também.
- Olívia? O que... - a frase ficou presa na gargante dele ao ver a cena bizarra, a filha estava jogada no chão, degolada, nas mãos de Olívia estava a faca com a qual a matou, o sangue estava espalhado por todo lado enquanto ele ouvia a a risada rosnada da esposa.
- Toque Charlie, quero ouvir o som do violino, toque pra mim. - disse Olívia entre as risadas enquanto ele chorava.



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